Algumas matérias

Revista IstoÉ Platinum
Turismo: Jordânia

 

Todas as surpresas da Jordânia

O país mais liberal do Oriente Médio não nega suas tradições e a religião islâmica. Confira nosso passeio por um lugar de luxo e belezas naturais

 

Na Jordânia, um café não é um espresso, as casas não têm cores e quando o avião chega ao aeroporto Queen Alia na capital Amã, a impressão é de se ter pousado no meio do nada. Aqui, o sol parece brilhar mais forte, o céu é mais azul e as tradições – além da religião, é claro – são levadas a sério. O calor é intenso e os estereótipos são quebrados do primeiro ao último momento. Jihad, por exemplo, não é guerra santa. “Esse foi um erro de tradução”, explica o guia local Ibrahim El-Wahsh. “Jihad significa compromisso de defender tudo e todos que você ama: sua família, sua esposa, sua casa...” As revelações surpreendentes se encadeiam. A origem do véu para cobrir as mulheres vem do deserto e não devido a qualquer repressão religiosa.

As beduínas buscavam proteger a pele do sol e o hábito foi reforçado mais tarde, claro, pelos preceitos do Islã. Apesar da presença da religião que se vê – e se ouve, diariamente, às 18 horas no canto que sai das mesquitas e chama para a reza do Corão –, a Jordânia é o país mais liberal entre os muçulmanos, e as mulheres têm direito a votar e dirigir, algo nem sempre comum em outras nações islâmicas. Parte dessa modernidade se deve ao atual casal real. O rei Abdullah II gosta de pilotar aviões, participar de ralis no deserto, mergulha e coleciona armas. Sua esposa, a bela Rania, é exemplo de elegância, bom gosto e também realiza um trabalho social significativo. Além dessa particularidade, prepare-se para ser recebido em qualquer lugar – de um hotel cinco-estrelas no Mar Morto a um simples Souq em Aqaba – com um delicioso chá beduíno, à base de especiarias como anis, sálvia, canela e cardamomo.

Hotéis luxuosos não faltam na Jordânia. Nem spas ou experiências inesquecíveis. Por isso, Platinum selecionou cinco destinos nesse país que tem uma diversidade geográfica tão rica que abrange de oceanos a lagos, passando por cascatas e desertos. Contamos para você o que há de imperdível em todos eles:

 

Petra

Uma cidade esculpida no fim do século VI a.C. na superfície das rochas pelos nabateus, engenhoso povo árabe que a transformou num lugar importante para a rota da seda, das especiarias e outros caminhos comerciais que ligavam a China e a Índia ao Egito, à Síria, à Grécia e a Roma.

A descrição é grandiosa e as construções, idem. A arquitetura dos túmulos, mausoléus e templos de adoração – entre eles o Tesouro (foto), o mais famoso de todos, retratado no filme “Indiana Jones e a última cruzada” – e a história, visto que fez parte do Império Romano, já fariam a visita a Petra valer a pena. Mas a Cidade Cor-de-Rosa oferece muito mais. Patrimônio Mundial da Unesco, ela reúne uma paisagem mística, de energia impressionante. Para fugir do calor escaldante, o restaurante Basin tem uma vista encantadora das rochas. Com o passar das horas, o sol se desloca e no começo da tarde se compreende por que Petra é a Cidade Cor-de-Rosa. Suas rochas, formadas principalmente por minérios, ganham esse tom com a luz natural. E fazem uma moldura imponente para esse cenário que se completa com o céu azul. O passeio noturno é uma emoção à parte, com o caminho até o Tesouro iluminado por 1.800 velas e uma apresentação de música no que poderia ser uma penumbra se não fosse pelo céu estrelado.

 

Aqaba e Mar Vermelho

Sob as águas azul-turquesa, encontra-se a exuberância da vida submarina como um caleidoscópio com todas as cores possíveis de corais e vida marinha, como anêmonas, ouriços e peixes-palhaço. Em Aqaba, conhecida como a janela jordaniana para o mar, o passeio preferido é o de barco pelo Mar Vermelho, com direito a comida típica – entenda-se carneiro e frango na brasa e refrescantes saladas – e snorkel em três pontos de mergulho, onde a visibilidade é boa até 200 metros de profundidade. Se o objetivo é descansar, os resorts se dedicam a isso. O Kempinski (foto), por exemplo, faz as honras, principalmente em sua Executive Panoramic Suite, com banheira de casal com vista para a praia privativa. “Oferecemos uma coleção de experiências com privacidade. Ninguém que não esteja hospedado no hotel entra aqui, nem para ir ao spa, nem para ir ao bar”, diz Seba Ramahi, diretora de vendas do Kempinski. Aqui, todos os quartos têm vista para o mar. O spa é um capítulo à parte. “Noventa e cinco por cento dos produtos que usamos são naturais, como as ervas e óleos essenciais, sem nenhum conservante”, completa Jelena Prvulovic, diretora do spa.

 

Ma’in

A 58 quilômetros da capital Amã, Ma’in é uma cascata termal cravada em rochas históricas. Diz a Bíblia que o Rei Herodes frequentava suas águas, que prometem curar problemas respiratórios e de pele. Herodes teria erguido uma casa nas redondezas, por volta de 27 d.C. em que sua sobrinha, Salomé, teria dançado para ele pedindo como recompensa que o rei decapitasse João Batista. Episódios bíblicos à parte, o fato é que as termas da região são um destino bem procurado na Jordânia e suas águas chegam a 60 graus Celsius nos meses de julho e agosto. O hotel Evason Ma’in (fotos do lobby acima e do restaurante, abaixo), da rede Six Senses, é a principal atração. Ele conta com 97 quartos, dos quais 19 são suítes. “Tudo aqui é único, local e orgânico”, diz a diretora de vendas do Evason Ma’in, Lora Artiola. A Honeymoon Suíte é especial. Tem 108 m², sua diária custa US$ 2,5 mil, e o pacote para três noites inclui um jantar na sacada da suíte – que tem vista panorâmica para a cachoeira (foto à dir.) – e um tratamento no imperdível spa. A massagem tailandesa, por exemplo, usa essência de mirra e técnicas de pressão em pontos específicos do corpo para fazer a energia fluir.

 

Mar Morto

O éden da beleza e do relaxamento. Esse poderia ser o apelido do Mar Morto, que, apesar do nome, é um lago. Ele fica na região mais baixa da face da Terra, a 425 metros abaixo do nível do mar, em que há cerca de 8% a mais de oxigênio que no resto do planeta. O local, que se acredita ter sido descrito na “Bíblia” como os Jardins do Éden, tem um ar puro e um sol que queima menos, pois graças à evaporação da água cria-se um filtro natural contra os raios UV. Tem também a lama negra que era usada até mesmo por Cleópatra no século I a.C. devido a suas conhecidas propriedades embelezadoras. Com 80 quilômetros de comprimento e 14 de largura, o Mar Morto tem águas mornas e tão saturadas de sal e outros minerais, como magnésio, sódio e potássio, que é literalmente impossível afundar nele. O pôr do sol é incrível, sobretudo se admirado de uma das piscinas de borda infinita que se multiplicam nas fachadas de resorts de categoria – e cozinha – internacional. O Kempinski Ishtar (fotos ao lado) é um exemplo de destino do jet set mundial na Jordânia. Seu spa traz algumas das mais refinadas e relaxantes opções da região, como a vigorosa massagem sueca e a exfoliação em que o mais puro sal marinho se combina a óleos essenciais para uma pele renovada.

 

Wadi Rum

“Vastos, ecoantes e como deuses”. Foi assim que o arqueólogo, escritor e militar TE Lawrence (1888-1935) descreveu os ventos que sopram em Wadi Rum, a maior e mais imponente paisagem do deserto jordaniano. Suas montanhas de arenito chegam a 1.750 metros de altura e ele acaba de ser inscrito como patrimônio cultural e de beleza natural pela Unesco. Um passeio por lá pode ser contemplativo, pois é um dos lugares do mundo com maior probabilidade de ver estrelas cadentes. Ou então agitado: de um passeio de dromedário para ver o pôr do sol a peripécias por ar (em um balão) e pelas areias, com um 4x4. Com sorte, é possível se deparar com um grupo de beduínos. A Jordânia tem entre 150 mil e 250 mil deles, ainda nas mesmas atividades que há milhares de anos: criando e comercializando cabras e derivados de seu leite. Eles são nômades e costumam subir as montanhas no verão e descer para o deserto durante o inverno. Para se sentir um verdadeiro beduíno é preciso se munir de espírito aventureiro e dormir no Captain Camp, acampamento em que a eletricidade é cortada depois das 22 horas e as tendas têm apenas uma cama e uma mesa. A compensação é viver uma verdadeira experiência no deserto, com direito a música típica e jantar idem.

 

Cozinha de raiz
 

“Não cobiçar o jeito de comer alheio, exigindo dos pratos brasileiros o minimalismo dos franceses, a leveza das cozinhas orientais, a sofisticação dos restaurantes chiques de NY.” Esse é um dos 10 mandamentos do site do restaurante Tordesilhas, de Mara Salles. É um jeito divertido de mostrar que a nossa cozinha tem seu próprio borogodó e não deve ser comparada à de outros países. Mara é uma das maiores representantes da nossa comida típica, junto com Ana Luiza Trajano, do paulistano Brasil a Gosto, e César Santos, do pernambucano Oficina do Sabor. Os três conversaram com Status e contam do que é feita essa cozinha de raiz. O Oficina do Sabor é o mais antigo dessa tríade e assumiu, em 1992, a então árdua missão de apresentar comida nordestina com sofisticação. “No começo, as pessoas perguntavam: Por que vou sair para comer carne de sol se eu tenho em casa?”, conta César Santos. “Mas isso mudou e hoje meu restaurante virou referência gastronômica.” Para enfrentar o desafio, o chef usou a decoração – que emprega artesanato e arte da região – e, é claro, a cozinha. A mescla de frutos do mar com frutas e ervas resulta em delícias como o jerimum (abóbora) recheado com camarão ao molho de pitanga. “Podemos usar técnicas das cozinhas francesa, tailandesa e italiana, mas com nossos produtos”, diz Santos.

“Estamos vivendo um despertar dos ingredientes brasileiros”, concorda Mara Salles. “E é mundial: todo mundo quer conhecer o tucupi, a maniçoba, as nossas farinhas, o jambu... Os ingredientes nacionais estão na moda”, comemora. Em seu restaurante em São Paulo a menina dos

olhos é o pato ao tucupi com jambu. Para um não iniciado, o nome é um mistério, mas a chef explica: “A combinação harmoniza a gordura da carne de pato com a acidez do tucupi (tempero extraído da raiz da mandioca-brava) e a dormência do jambu (erva conhecida por causar um

amortecimento temporário na língua e também por um fato menos científico: é tida como afrodisíaca). “Esse é um prato de festa com sabedoria ancestral.”

E, por falar em prato de festa, é possível pensar em um banquete só composto de delícias nacionais? Ana Luiza Trajano responde: “Nossa culinária pode ser elegante, sim. E leve e muito bonita.” E, de cara, cita dois exemplos. Ela criou um cardápio 100% brasileiro para o batizado do seu filho. Teve porco no rolete, vários tipos de farofa e de arroz, e petiscos, como jiló frito. “Faço tudo bem decorado e com muito sabor. É uma questão de combinação e apresentação.” Não se convenceu? Em seu próprio casamento Ana Luiza pensou em um menu brasileiríssimo, com direito a sanduíche de pernil no pão de queijo. A festa aconteceu na mesma época em que a chef abriu o Brasil a Gosto, há cinco anos, e ela se diverte ao lembrar os comentários que ouviu. “As pessoas diziam que eu era desconhecida e estava fazendo uma comida que as pessoas achavam cafona: a brasileira. Hoje, mostrei o que queria e não me canso de estudar todas as culinárias do nosso País”, conclui.

 

As estrelas

Cada um dos três chefs conta qual ingrediente é seu melhor amigo na hora de encarar as caçarolas:

Ana Luiza:  Não vivo sem vários ingredientes. Mas de cara posso falar da mandioca e de suas farinhas, do cheiro-verde, do alho e da cebola.

César: É difícil escolher um só, mas acho que não vivo sem mandioca, um produto genuíno com o qual dá para fazer entrada, prato principal e até sobremesa. Também tem a carne de sol e o mel de engenho, que estão entre meus favoritos.

Mara: Eu não consigo trabalhar sem uma pimentinha por perto, fresca de preferência.

 

Elemento Surpresa

Em tantos anos de pesquisa, os chefse ncontraram produtos que “pareciam, mas não eram”. Descubra quais:

Ana Luiza: A castanha de baru, originária do Centro-Oeste. Fui uma das primeiras a usar, há cinco anos. Descobri que ela tem alto índice de aproveitamento: a manteiga virou couvert, a castanha acompanha o abadejo no prato principal e virou entrada no mix de castanhas. E pensar que antes ela era menosprezada... Agora virou chique!

César: Particularmente, eu tinha um certo preconceito com quiabo, no início. Aqui no Nordeste ele é servido dentro do feijão. Mas, quando comecei a explorá-lo no frango e na salada, quebrei o tabu. Em termos de versatilidade, a fruta-pão foi uma agradável surpresa, pois quando cozida (com água e sal) pode virar bolo, purê, doce...

Mara: Muitos ingredientes me “pregaram peças” em todos estes anos. A primeira vez que recebi um pirarucu salgado, há uns 15 anos, por exemplo, liguei para o fornecedor em Belém e falei que ele tinha me mandado um ingrediente errado, pois parecia tão feio e fedido. Depois de muito perguntar e investigar na colônia paraense aqui em São Paulo, percebi que era a característica do peixe. Hoje, uso-o fresco e acho incrível. Outra surpresa foi o mangarito, uma batatinha selvagem em via de extinção. Descobri casualmente e hoje tenho um fornecedor que planta especialmente para mim. Ele tem gosto amendoado e lembra uma castanha portuguesa. É sujo e peludo, mas tem um sabor muito interessante.

Pierre Cardin: passado e presente

Seria fácil falar de Pierre Cardin por suas frases de impacto como “a mulher é como uma flor e o vestido, um vaso” ou então “o que se espera de um

estilista é que ele modifique o mundo pela estrutura da roupa, pelo corte e pela linha”. Poderia ser inspirador mencionar suas principais contribuições com a moda, como a criação do prêt-à-porter e a coleção Cosmos, que inaugurou a visão que temos até hoje de um estilo futurista. Não seria complicado mencionar os estilistas que foram influenciados por sua obra, como o francês Jean Paul Gaultier, o português Felipe Oliveira Baptista (hoje à frente da Lacoste) ou o brasileiro André Lima. O difícil é traduzir em poucas palavras o que Cardin representa para a moda. Mais do que criar formas novas, como o vestido-bolha e golas que desafiam a volumetria, ele desenhou todo um estilo de vida. “Tudo pode me inspirar durante o dia. Mas é à noite, quando fecho os olhos, que começo a ver linhas e cores”, contou à Platinum em sua recente visita ao Brasil a convite da empresa Mix Brand Experience. “Penso nas roupas como uma forma de arquitetura”, explicou o irrequieto estilista, que aos 88 anos não para. E é exatamente nessa área que ele tem concentrado suas atenções.

Sua mais nova empreitada é o Palais Lumière, complexo de 200 metros de altura, que abrigará 1.800 apartamentos, mil vagas de estacionamento, dez cinemas e 12 restaurantes. Está sendo construído em Veneza e será inaugurado em 2012. Outras unidades serão erguidas em Las Vegas e Xangai e ele diz que adoraria conceber uma no Rio de Janeiro. Trata-se de um trabalho que tem ocupado seus três últimos anos e terá de tapetes a sofás até copos e talheres criados por ele. “Acredito que esse seja meu último grande projeto: o mundo Pierre Cardin”, imagina. Isso porque pensa em colocar sua marca à venda, segundo afirmou ao jornal francês “Le Figaro”, por um bilhão de euros.

O valor da grife vai além da frieza dos números. Ela carrega uma história singular. Em 1959, o estilista escandalizou o mundo da moda ao introduzir a primeira coleção de prêt-à- porter de que se tem notícia. A ousadia resultou na sua expulsão da Câmara Sindical da Alta-Costura. Uma mudança

inesperada na carreira do homem que havia participado da criação do New Look, em 1947, quando trabalhava na Maison Dior. Mas isso não o abalou. Sempre em busca de inovações, conta que ia a museus para ver o que já tinha sido criado e fazer diferente.

Quem presenciou de perto essa ânsia por novidades foi a brasileira Maria Bourgeois, atualmente presidente da ONG Comitê pela Vida, que foi modelo e musa de Cardin na década de 60. Ela já desfilou com o vestido vermelho que tinha cones sobre os seios – e mais tarde inspiraria Jean Paul Gaultier –, posou com o primeiro look criado para a coleção Cosmos, de 1964, e também com o traje que Jackie Kennedy usou no casamento com Onassis. Não lhe faltam recordações. “Ele era muito rigoroso. A gente só podia faltar ao trabalho se estivesse morta”, diz. Ela conta que o chefe a chamara para um almoço no consulado britânico em Paris com ninguém menos que a rainha Elisabeth II. “Ele me avisou de última hora e eu entrei em pânico: como iria fazer com o cabelo, a maquiagem?” A solução foi mais simples do que imaginara: o próprio Pierre Cardin a ajudou. A simplicidade do mestre apareceu em outros momentos, como quando ia comprar frango assado, vinho e baguete para que a equipe comesse durante a madrugada, durante intermináveis sessões de fotografia. “Tenho muito orgulho de ter passado por tudo isso”, diz Maria.

Ela não é a única a ter lembranças dessa época. O cineasta Cacá Diegues dirigiu Cardin no filme “Joanna Francesa”, de 1975. O estilista que sonhava ser ator se saiu bem no papel de um cônsul francês e impressionou o diretor. “Ele é um artista sensível, capaz de compreender uma filmagem difícil como aquela, mesmo não tendo experiência. E estávamos filmando em condições precárias, no interior de Alagoas, durante um verão de mais de 40 graus à sombra. Ele enfrentou tudo com muita disposição e elegância”, lembra. Depois das gravações da película, o estilista retornaria ao Brasil ainda uma dezena de vezes, mas, independentemente disso, sempre foi muito presente em nossa moda.

Ainda hoje, seus modelos criados há mais de cinco décadas são atuais. Ele pensou na moda futurista e conseguiu enxergar o que poucos viram: um estilo prático e chique. “Ele tem uma linguagem geométrica e, ao mesmo tempo, orgânica, que me inspira. Ele é uma aula viva de como administrar os negócios. Criou um prêt-à-porter com ótima distribuição e grande apelo comercial”, enumera André Lima, estilista que desfila suas coleções no São Paulo Fashion Week. Outra lição que Cardin deixou para estilistas do mundo todo é a forma como criou um lifestyle. Seu império vai de linhas de objetos de decoração e restaurantes (comprou o clássico Maxim’s, em Paris) a um teatro, o Espaço Cardin.

Nada que se compare à penetração da marca nos anos 60 e 70, quando teve cerca de 50 butiques pelo mundo – hoje mantém apenas uma, em Paris, e prefere trabalhar com multimarcas. Na época, optou por um processo de expansão que incluiu um licenciamento de marca tão abrangente que a fez se afastar do universo do luxo. “Eu queria popularizar a minha grife. Tinha um sonho comunista e queria que todos tivessem acesso às minhas criações. Ironicamente foi esse sonho que me deu dinheiro de verdade”, diz. Cardin assinou produtos tão diversificados quanto uma água mineral e um avião. Por essas e outras, afirma que não existe algo que não tenha feito, mas não resta dúvida de que sua paixão é a moda. “Ela está em tudo, reflete quem somos, de onde viemos, nossa idade e até nossa profissão. Se tivesse de escolher uma só atividade seria esta.”

E nessa área, sua importância é indiscutível. Suzy Menkes, uma das críticas de moda mais conceituadas do mundo, disse que ele expressou a criação de uma cultura jovem nos anos 60. E, enquanto não decide o futuro de sua grife, ele se preocupa com o presente. Cardin desfilou nas duas últimas semanas de moda de Paris, voltando atrás na decisão que havia tomado em 2000, quando deixou de participar do evento, decepcionado com a velocidade com que suas criações eram copiadas. Quando indagado se ainda fica nervoso ao subir em uma passarela, responde que já virou hábito, com a confiança típica de quem tira isso de letra. O relógio acelera e nossa entrevista está terminando. Sabendo que ele se mostra apreensivo a respeito do futuro e chegara a comentar sobre a ausência de um sucessor que honre seu legado, arrisco uma derradeira questão: Como ficará a moda amanhã? “Isso não sei. Sei que o que importa é o estilo. E isso eu tenho, não me interessa se gostam ou não. Eu não copio os outros. Sou Pierre Cardin.”

Esta é uma pequena amostra do meu trabalho. Já viajei pela Suíça, pela Índia, pela Espanha, pelos Estados Unidos... já entrevistei Joël Robuchon, fiquei hospedada nos hotéis Ritz de Paris e Lisboa, no Claridge's em Londres, falei sobre as novas experiências na cozinha, sobre as histórias de Krug, Taittinger, Perrier Jouët e almocei no apartamento onde viveu Coco Chanel, entre outras experiências. Dá para imaginar quanta história tenho para contar?
Revista Status
Gastronomia: cozinha brasileira
Revista IstoÉ Platinum
Moda: Pierre Cardin

 

Revista MasterCard Black
Gastronomia:
La Pyramide

 

Sequência bem cuidada

Veja por que o menu-degustação criado pelo chef Patrick Henriroux está prestes a trazer as 3 estrelas ao restaurante La Pyramide

 

O chef Patrick Henriroux estava especialmente feliz naquele 7 de agosto, me disse Quentin Giraud, o sommelier do restaurante La Pyramide, na pequena cidade de Vienne, a cerca de 30 quilômetros de Lyon, na França. "Vocês podem trocar o prato principal do menu-confiance se quiserem, 
 ele está abrindo uma exceção. Querem?", explicou Quentin. Mas quem se atreveria a alterar a sequência tão pensada e bem cuidada de pratos que revisitam a tradição gastronômica francesa com muita técnica, uma pitada de intuição e os ingredientes mais puros e frescos do dia? A sequência de cinco pratos, que custa a partir de 138 euros, começou com uma combinação de iguarias: um recorte preciso de foie gras em 
 forma de uma gota, sobreposto por lâminas quase transparentes de um suculento pêssego amarelo, ao lado de magret de canard com flores de jasmim e uma brioche tostada. Em seguida, vieram lascas de omble de fontaine (um peixe da família do salmão) defumadas e servidas mornas com puntalettes, uma espécie de risone, preparado com molho de limão. Passamos por um supreme de pombo com polpa de tomates, alcachofras e sumo de frutas cítricas. Para começar a nos despedir daquele banquete, a seleção de mais de 15 queijos da região chegou à mesa em um carrinho, para livre escolha, acompanhada de cerejas em compota. A sobremesa lembrava um móbile do artista Alexander Calder, com um cilindro cremoso de sorvete de menta coberto com chocolate Valrhona. No topo, equilibrava-se meia esfera de mousse de chocolate com pimenta-da-Jamaica atravessada por uma finíssima lasca de chocolate. Tudo isso acompanhado de um ambiente agradável, coberto de ombrellones, com mesas decoradas com delicados arranjos de flores brancas e com vista para o jardim dos fundos do hotel La Pyramide, que abriga o restaurante e é membro do Relais & Châteaux.


Nos bastidores da criação

Curiosa, pedi para conhecer a cozinha, onde há uma bancada para peixes e outra para carnes, uma para o preparo das entradas e outra para sobremesas. Toda a estrutura em alumínio brilhava, como se dali não tivesse saído cerca de uma centena de pratos na última hora. A visita continuou pela adega, com três climatizadores para acomodar os mais de 1.000 rótulos que vêm de 600 produtores diferentes, e piso de pedras para preservar a umidade. A adega tem vista para o salão e é circundada por um vidro que recebe tratamento para permitir que de dentro se enxergue o que acontece fora, mas o contrário não. Assim, os sommeliers podem perceber se as garrafas estão esvaziando sem precisar circular entre as mesas. De volta ao brasil, a curiosidade de saber um pouco mais do processo criativo do chef me levou a escrever para ele. Quis saber quanto tempo ele leva para elaborar cada menu, que é renovado constantemente, mas sem uma frequência definida. “levo cerca de duas semanas para cada uma das etapas de produção, que são: reflexão, tentativas e acabamento”, disse à MasterCard Black o inspirado Patrick Henriroux, que tem como prato-assinatura o creme-suflê de dormeur (peixe chamado por aqui de gobi pavão) com caviar ossetra, caranguejo desfiado e crocante de alcachofras, criado há sete anos.


Um Pouco de história

Monsieur Henriroux assumiu o La Pyramide em um período de decadência do restaurante: ele havia passado por diversas mãos desde que Fernand Point, um dos grandes mitos da cozinha francesa, e que trouxe ao la Pyramide as sonhadas 3 estrelas Michelin, faleceu, em 1955. Ninguém tinha segurado a onda de comandar a cozinha daquele que foi o primeiro chef a sair de trás do fogão para fazer as honras aos comensais, e também o primeiro a entender que uma refeição deve ser uma experiência completa, onde serviço, salão e decoração têm grande peso. E mais: Fernand foi tutor de ninguém menos que Paul Bocuse, no próprio La Pyramide, por cinco anos. O resultado? O restaurante foi perdendo suas estrelas e seu rumo. Em 1989, adentra a cozinha o jovem Patrick Henriroux, aos 31 anos, vindo de uma trajetória que incluía passagens por restaurantes como o Ferme de Mougins, o Auberge Bressane e o Georges Blanc. Apenas um ano depois de sua chegada, arrebatou a primeira estrela Michelin para o La Pyramide. Dois anos depois, trouxe a segunda. Agora, está prestes a escrever um novo capítulo dessa história. E era por isso que ele estava tão feliz no dia em que provei seu menu-degustação, naquele 7 de agosto. ao final da refeição, soube que na noite anterior um dos (não tão) misteriosos inspetores do guia Michelin esteve por lá. E, ao final da refeição, mandou seus parabéns ao chef, o que indica que a tão ambicionada terceira estrela pode estar a caminho. Pelo visto, ele gostou da experiência tanto quanto eu.   

 

Siga-me

 

© 2014 por Priscilla Portugal 

Orgulhosamente criado por Wix.com

Skype

priscilla-portugal



 

  • Facebook App Icon
  • Twitter Reflection
  • LinkedIn App Icon
This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now